A pegada do Diabo
Luis Fernando Verissimo
O primeiro pensamento do Robinson Crusoé quando viu a impressão de um pé na areia da sua ilha, nos conta o Daniel Defoe, foi que se tratava de uma pegada do Diabo. Não pensou que fosse de outro ser humano. Não imaginava que na profundeza da sua solidão ainda encontraria um semelhante. Estava tão no fundo de si mesmo que só concebia um encontro com o outro na sua forma mais apavorante - o outro absoluto, o Outro de Deus, o último outro. O Diabo viera pegá-lo, ou ele descera tanto dentro de si mesmo, do seu ser sozinho, que chegara ao chão de tudo, que é o domínio do Diabo, "o estado do demônio" (Guimarães Rosa, muitos anos depois). Se ele não invadira o estado do Diabo então o Diabo descera do nada na sua ilha. Um Diabo como São Paulo descrevera aos Efésios, "príncipe das potestades do ar". "Potestade", o que tem força, o que domina. O Diabo é o príncipe do imaterial, das potestades do vazio, do que Deus não criou. Materializara-se do ar de que era mestre para deixar sua pegada na areia e avisar que estava ali. Se autodestilara do nada para o último encontro com um cristão no mais abismal abandono.
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Mas, para alívio de Robinson Crusoé, a pegada era humana. De um possível inimigo, mas não do último inimigo. De um outro que lhe resgatava da solidão absoluta e lhe devolvia à sua própria superfície e a possibilidade do convívio. E, com a descoberta de que o outro era um nativo, logo um semelhante, mas não muito, inferior e domesticável, a possibilidade do convívio civilizado no seu grau mais alto, para um inglês do século dezoito: o de mestre com subalterno. De um dia para o outro, Robinson Crusoé transformou sua ilha sem esperança numa colônia, mesmo que com um só inglês e um só colonizado.
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Ele poderia ter desejado que a pegada fosse de uma mulher, que em vez do Diabo outro derivado do ar se materializasse na sua praia. "Mulier" em latim vem de "mollis aer", ou ar mole, suave, terno. "Woman", em inglês, é remotamente derivado do termo em latim para vibração, "uibare" ou "vibrare", (de onde também vem "víbora"!). A palavra em alemão antigo para mulher significava "a vibradora" ou "a coberta com um véu" e se parecia com outros nomes para tudo o que ondulava como um véu, se agitava com o vento, mexia com o ar. Não são poucas as vezes na misógina cultura judaico-cristã em que a mulher e o demônio aparecem com os mesmos dons, o de nos desencaminhar, por exemplo, e este de comandar as potestades do ar e. Leia-se o Robinson Crusoé como um segundo Gênesis com um Adão inglês e faz sentido que o autor misericordioso tenha lhe dado, para mitigar sua solidão, em vez de uma Eva, um valete.
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Mas é curioso que a primeira dedução de Robinson Crusoé ao ver a pegada foi que era do Diabo. Lição para os nossos dias: procure a explicação não na metafísica ou em graves especulações sobre maquinações ocultas e etc., mas no que está na cara. A banalidade raramente engana. E o Diabo tem cascos.
OS PRIMEIROS
Eu estava lendo uma matéria sobre o Cole Porter na New Yorker e dei com a informação colateral de que o primeiro marido da sua mulher Linda Lee, o magnata da imprensa Edward R. Thomas, foi o primeiro homem no mundo a matar alguém com um automóvel. Fiquei pensando em todos os primeiros da história moderna, a começar pela primeira vítima do automóvel, o infeliz anônimo que Thomas atropelou. Quem teria sido o primeiro no mundo a queimar o dedo numa lâmpada elétrica? Ou prender o dedo no teclado de uma máquina de escrever? A fazer ou receber uma ligação telefônica errada? Cada nova tecnologia traz uma nova oportunidade para pioneiros. E não só primeiros em infortúnios ou vexames. Também há os primeiros lite. O primeiro que disse "Ih, acho que fiquei cego" com um flash de máquina fotográfica, ou que só lia Caras em salas de espera, ou que nunca via novela antes de comentar todo o enredo, ou "ninguém é perfeito" ao saber que alguém torce por outro time, ou "caiu um lenço" quando se ouve um ruído muito alto, ou "de comer de joelhos" a respeito de um prato muito bom, ou... Enfim, banalidades, banalidades.
OLIMPÍADA
Parece apropriado que o futebol brasileiro esteja representado na Grécia por um time de mulheres. Em países em que os homens emigraram atrás de emprego no Exterior, as mulheres fazem seu trabalho. O futebol brasileiro representado na Grécia é o futebol brasileiro da diáspora.
Domingo, 15 de agosto de 2004.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.